Veja, 26/05/1999

 

Picada de vaidade

Apesar dos perigos, cresce o número
de brasileiros que tomam injeções de
hormônio do crescimento
para tentar rejuvenescer

Fernando Luna e Eduardo Junqueira

Frederic Jean

 

 

 

 

 

A nova promessa de juventude se faz com duas letras GH, sigla em inglês para hormônio do crescimento. Ampolas da droga estão invadindo academias de ginástica e centros de estética brasileiros, na surdina, depois de se ter transformado numa das substâncias com trânsito corrente entre ricaços e artistas de Hollywood. O hormônio teria o poder de enrijecer músculos, rejuvenescer a pele, fortalecer os ossos, melhorar o humor, revitalizar os cabelos e até ativar a libido. É tentador. Quem não quer

"Comprava o hormônio na academia. Acho que era contrabando. Nunca procurei um médico para fazer exames. Mas foi ótimo. Minha pele e minha disposição melhoraram."
Alicinha Cavalcanti, 36 anos, promoter
deter o processo de envelhecimento? Entre os americanos, a atriz Goldie Hawn, conservadíssima em seus 53 anos, e o ator Nick Nolte, galã aos 59 anos, já usam o GH. Há um único problema, porém. Envelhecer não é apenas uma brincadeira da natureza contra a humanidade. Parar o relógio biológico pode ser arriscado. Nenhum médico ou cientista conhece em detalhes os efeitos adversos do medicamento quando tomado por longos períodos. "É um perigo usar para fins estéticos um hormônio cujos efeitos colaterais em pessoas normais ainda não são totalmente conhecidos", alerta a endocrinologista Berenice de Mendonça, chefe do laboratório de hormônios do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Desde os anos 60, o GH aparece no rol de produtos da indústria farmacêutica. Era prescrito para crianças com problemas de baixa estatura, e só para elas, porque o hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano era de difícil obtenção. Extraídas de cadáveres, as gotas do GH eram vendidas a preços astronômicos. Foi só na década de 80 que se conseguiu fabricar uma versão sintética, a partir de bactérias manipuladas geneticamente. Com o aumento da oferta e a redução dos preços, novas linhas de pesquisa apontaram a utilidade do GH em casos restritos de doenças em adultos. Doentes de Aids em estágio avançado passaram a receber injeções de GH para que recuperassem massa muscular. Daí para que se popularizasse entre pessoas saudáveis foi um passo. Se aumentava a massa muscular em pacientes com o vírus da Aids, por que não em freqüentadores de academias? Na prática, as ampolas do hormônio começaram a ser mais vendidas como elixir da juventude do que como remédio. Pessoas infelizes com a barriga saliente, os pés-de-galinha ao redor dos olhos ou os cabelos quebradiços se lançaram na aventura hormonal. Entre 1997 e 1998, o Brasil registrou um aumento de 80% nas vendas do remédio. No período, o faturamento dos laboratórios sediados no Brasil, apenas com a venda do GH, saltou de 70 milhões para 150 milhões de dólares.

Hormônio tem aumento de

80% nas vendas

O Ministério da Saúde só autoriza a venda do hormônio mediante a apresentação de receita médica. É no mercado paralelo, no entanto, que os usuários do remédio encontram a droga. "Eu comprava o hormônio dentro da própria academia de ginástica", conta a promoter paulista Alicinha Cavalcanti, de 36 anos. "Acho que era contrabandeado." Em 1997, durante três meses, Alicinha tomou a droga por indicação de um nutricionista da academia. Não se consultou com médico algum e não se arrepende. "Foi ótimo: minha pele recuperou o viço, me sentia mais bem disposta, o sono era mais reconfortante e reparador", diz ela, com uma camiseta sem mangas exibindo músculos bem torneados. Alicinha pretende retomar as picadas, interrompidas há um ano.

O preço do hormônio sintético é muito menor do que o natural. Mas a droga ainda é cara. Uma ampola custa cerca de 90 reais. Como se usam em média cinco ampolas por semana, no fim do mês chega-se a 1.800 reais. O preço afastou o comerciante paulistano Walter Machado, de 30 anos, das injeções de hormônio. "Usei o remédio durante dois meses, na época em que participava de competições de fisiculturismo", lembra. Machado já tinha experimentado coquetéis de anabolizantes, aquelas bombas de inflar músculos. Preferiu o GH. "Meu corpo ficou mais definido em um tempo muito menor." Ainda por cima, aquele efeito colateral horroroso dos anabolizantes, a redução da libido, não existe no caso do GH. Mas há outros estragos. E eles podem ser irreversíveis.

É quase certo que a substância deflagre quadros de diabetes, quando há a predisposição genética para isso, revela um trabalho do Instituto Nacional de Envelhecimento dos Estados Unidos. "Já vi casos de pessoas que desenvolveram o diabetes depois de tomar o hormônio por apenas quinze dias", alerta o endocrinologista carioca Luiz Cesar Póvoa. Em artigo publicado pela Harvard Health Letter, cientistas da universidade americana levantam suspeitas de que doses a mais do hormônio estejam relacionadas ao desenvolvimento de câncer. Como a droga estimula a multiplicação celular é por isso que os músculos ficam mais salientes , também estimularia o crescimento de tumores malignos. Assustador? Sim, mas nada provado até agora. São apenas suspeitas. Mas há mais. Segundo um estudo de 1996, publicado no Annals of Internal Medicine, uma conceituada revista médica americana, o GH pode provocar o crescimento desmedido dos ossos.

O GH é produzido pela hipófise, uma glândula localizada na base do cérebro. "A secreção do hormônio atinge o pico na adolescência e depois começa a cair gradualmente", explica o endocrinologista paulista Alfredo Halpern. Aos 55 anos, os níveis de GH são 70% do que eram entre 18 e 30 anos. Os cientistas argumentam que o declínio na produção hormonal desempenha um papel importante no processo de envelhecimento físico e funcional dos seres humanos. Entretanto, ainda não se tem a dimensão exata de quanto a baixa hormonal contribui para a velhice. Tem-se de levar em conta a genética, os hábitos alimentares, o vício do cigarro, o sedentarismo tudo isso interfere na maneira como as pessoas envelhecem.

 

"Toda manhã tomo uma pílula efervescente. Meu cabelo cresce mais rápido." Yara Baumgart, 51 anos, empresária

 

"O hormônio é uma boa ajuda para minha rotina corrida. Cada caixa custa 500 reais. É caro, mas está valendo a pena." Alcides Fernandes, 40 anos, executivo

 

Independentemente do aval da ciência, contudo, o sucesso do GH é tanto que até deu filhotes. Laboratórios americanos estão vendendo um coquetel de substâncias destinado a estimular a hipófise a produzir mais e mais GH natural. Pelo menos é assim que o laboratório fabricante comercializa seu produto. A principal vantagem do coquetel é que ele vem na forma de tabletes efervescentes, como os de vitamina C. É uma boa pedida para quem tem horror às agulhadas. Ainda não produzidas no Brasil, as pastilhas são importadas dos Estados Unidos, especialmente de Miami.

"Toda manhã tomo uma pílula efervescente", conta a socialite-empresária paulista Yara Baumgart, de 51 anos. "Minha pele está mais bonita e o cabeleireiro disse que meu cabelo cresce mais rápido do que o das outras clientes", gaba-se. São resultados que ela diz notar em pouquíssimo tempo de uso do remédio, menos de dois meses. Outro adepto das pastilhas efervescentes é o executivo paulista Alcides Fernandes, de 40 anos, diretor da multinacional Combined Logistics do Brasil. "Tomo as pílulas há um mês, de segunda a sexta-feira, sempre em jejum", diz ele. "Estou me sentindo muito mais disposto." Cada caixa de pastilha custa em média 500 reais. "É caro, mas está valendo a pena", garante Fernandes.

Como acontece com o GH injetável, nem o FDA, a agência de controle de remédios dos Estados Unidos, nem o Ministério da Saúde brasileiro reconhecem os efeitos rejuvenescedores das pastilhas. "Não dá para falar em rejuvenescimento. É algo muito subjetivo, sem parâmetros científicos", critica o endocrinologista Geraldo Medeiros, da Universidade de São Paulo. Mas quem se importa? Como o GH toca no insaciável desejo do ser humano de fazer o tempo parar e, se possível, voltar para trás, é sucesso.

 

 

 

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