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A GLUTAMINA
aplicada à Nutrição Clínica, Parenteral e Enteral
Por
Maria Izabel Lamounier de Vasconcelos
- Presidente do Comitê de Nutrição
Fonte: Site da
Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) e
Sociedade Brasileira de Nutrição Clínica (SBNC)
A glutamina é o mais abundante aminoácido do plasma e constitui
aproximadamente 20% do total de aminoácidos livres circulantes. É
classificada com um aminoácido não-essencial, exceto em situações como
trauma e infecções graves (Vasconcelos e Tirapegui, 1998, Vinnars e cols.,
1990, Fischer e Chance, 1990, Ziegler e cols., 1990, Souba e cols., 1990,
Savy, 1997, Smith e Wilmore, 1990, Shou, 1994).
Desenvolve papel fundamental na terapia nutricional devido às suas
múltiplas funções: é necessária para o crescimento e diferenciação
celular; serve como veículo para transporte de nitrogênio e cadeia
carbônica entre os órgãos; é o maior substrato da síntese de amônia renal;
é o precursor essencial para a síntese de nucleotídeos, uma vez que tem a
capacidade de doar nitrogênio; regula a síntese de proteína e glicogênio;
fornece energia aos fibroblastos, aumentando a síntese do colágeno;
constitui substrato para as células da mucosa intestinal (enterócitos),
células do túbulo renal, células endoteliais; tem importância fundamental
no metabolismo energético, na síntese protéica, no trofismo do trato
gastrointestinal e na capacidade de defesa do organismo; atua como fonte
de energia para as células de rápida proliferação, como os fibroblastos,
os linfócitos, os macrófagos, as células tumorais e células do epitélio
intestinal; tem influência no trofismo da barreira intestinal e função
imune do intestino, através da ativação da enzima glutaminase intestinal e
pelo transporte nas microvilosidades, prevenindo a deterioração do
intestino; promove o balanço nitrogenado positivo; normaliza a
permeabilidade e integridade intestinal; aumenta a resistência à infecção
por melhora da função fagocitária; age como precursora da ureogênese
hepática, gliconeogênese, da amoniogênese urinária (participando do
balanço ácido-básico) e de neuromediadores, como o ácido
gama-aminobutírico (GABA), a glicina e o ácido glutâmico (Ziegler, 1994,
Jensen e cols., 1996, Ziegler, 1996, Buchman, 1996, Smith, 1990, Souba e
cols., 1990, Rennie e cols., 1996, Krebs, 1980).
Tem sido sugerido que na diminuição da concentração plasmática da
glutamina que ocorre em situações de estresse, onde o organismo não
consegue sintetizá-la em quantidade suficiente, se não for fornecida pela
dieta, pode ocorrer o estado de deficiência, contribuindo, pelo menos em
parte, para o estabelecimento de um estado de imunosupressão (Fürst, 1997,
Hulst e cols., 1993, Rombeau, 1990, Barber e cols., 1990, Alverdy, 1990,
Ferguson, 1994, Shou, 1994, Rhoads e cols., 1997).
Vale salientar que a glutamina tem um papel fundamental na manutenção das
funções do sistema imunológico, pois a enzima glutaminase apresenta
atividade aumentada em tecidos linfóides; os macrófagos e linfócitos
utilizam a glutamina de maneira semelhante à utilização de glicose; a
glutamina estimula a proliferação de linfócitos e a fagocitose de
macrófagos; e a glutamina influi na diferenciação de células B e na
produção de IL-1 por macrófagos. Com isso, ocorre um aumento da demanda
pelos tecidos para glutamina ocasionando numa redução significativa dos
níveis plasmáticos, apesar do aumento da liberação de glutamina pelos
músculos esqueléticos. Estudos experimentais indicam que a suplementação
de glutamina é especialmente decisiva para os pacientes criticamente
enfermos, quando a barreira da mucosa intestinal pode tornar-se
comprometida, pois o intestino é um dos órgãos que mais necessita da
glutamina para manter o epitélio e as vilosidades intestinais e conservar
suas funções de absorção e defesa (Reitzer e cols., 1979, Newsholme, 1990,
Pastores e cols., 1994, Wallace e Keast, 1992, Deitch, 1994, Leeuwen e
cols., 1994, Prado, 1994).
A recomendação clínica para pacientes adultos, internados, é de 30g/dia de
glutamina e a maioria das formulações enterais disponíveis, contém
pequenas quantidades de glutamina, geralmente menos de 14% do total
protéico. Estudos recentes demonstraram que se faz necessário administrar
concentrações superiores às que se encontram na maioria das dietas
comercialmente disponíveis, e que podem ser na forma de dipeptídeo ou da
glutamina cristalina. A glutamina na forma de dipeptídeo é mais estável em
soluções aquosas que a glutamina na forma livre, e não é degradada
mediante processos de esterilização rotineiros, evitando o surgimento de
músculos esqueléticos atrofiados (Savy, 1997, Kuhn e cols., 1997, Matarese,
1994, Behrendt e Raumanns, 1998, Hickson e cols., 1996, Windmueller e
Spaeth, 1975, Marchini e cols., 1997, Newsholme e Carrié, 1994).
De acordo com estudos de Buchman (1996), Pastores e cols., (1994), Rhoads
e cols., (1997) e Ziegler (1996), o fornecimento de adequada provisão de
glutamina é essencial para a manutenção da integridade da mucosa
intestinal e função imune dos linfócitos, além de preservar a glutamina
muscular e melhorar o balanço nitrogenado, sendo portanto, essencial para
a recuperação do paciente crítico.
Está comprovado cientificamente (Fürst, 1997) que a glutamina é um
nutriente essencial para a preservação da integridade intestinal, como a
manutenção da função de barreira imunológica, (GALT Gut Associated
Lymphatic Tissue), resultando em efeitos significativos na sobrevida dos
pacientes críticos.
De acordo com Elia e Lunn (1997), entre os fatores que podem determinar a
eficácia da glutamina nas patologias gastrointestinais, está a
distribuição das enzimas envolvidas no metabolismo da glutamina. Sendo
duas importantes enzimas que catalizam as reações, glutamina sintetase
(síntese da glutamina) e glutaminase (inicia o catabolismo da glutamina
para sua subsequente oxidação). De acordo com os pesquisadores, existe
pouca glutamina sintetase em toda a mucosa do trato gastrointestinal e
existe baixa atividade da glutaminase no esôfago, atividade intermediária
em várias partes do colon (ceco, ascendente, transverso, descendente e
reto) e alta atividade no intestino delgado (duodeno e íleo).
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