Milhões de brasileiros têm intolerância à lactose

ANDRÉA GALANTE
colunista da
Folha Online

Publicado em:
12/10/2004

Um estudo feito em 1996 por Adriana Sevá-Pereira mostrou que, entre os 144 milhões de brasileiros, a má absorção da lactose ocorre em 58 milhões de adultos (maiores de 15 anos), dos quais 37 milhões têm intolerância à lactose.

Desses, 27 milhões têm intolerância a um copo de leite --dez milhões têm intolerância grave. O que esses números permitem concluir é que, no mínimo, 27 milhões de brasileiros, por determinação genética, ou seja, por não produzir a enzima responsável pela digestão da lactose, podem ter sintomas ao ingerir um copo de leite.

Para você entender melhor, a lactose é um dissacarídeo --pode ser entendido como o açúcar do leite. Dessa forma, só encontramos lactose em leites e derivados. Apesar de ser um tipo de açúcar, é apenas um sexto tão doce quanto a glicose (açúcar refinado). A lactose é formada por duas moléculas de monossacarídeos, glicose e galactose.

Para ocorrer a digestão da lactose, é necessária a presença de uma enzima (lactase) digestiva em quantidades suficiente para realizar a conversão de galactose em glicose. Quando a lactose não é hidrolisada (quebrada) em galactose e glicose, ela permanece no intestino e age osmoticamente para retirar a água dos intestinos. As bactérias presentes no intestino fermentam a lactose que não foi digerida e os sintomas no indivíduo podem ser inchaço, flatulência, cólica e diarréia.

A lactase é uma enzima --substância que participa de vários processos fisiológicos e é produzida pelo próprio organismo. A deficiência de lactase no indivíduo, pode ser diagnosticada por avaliação médica, que leva em consideração o consumo de leite e derivados versus os sintomas gastrointestinais, além de testes específicos que avaliam a tolerância à lactose.

O cuidado nutricional tradicional é baseado na redução ou na retirada de todos os produtos lácteos. Entretanto, apesar de a lactase ser uma enzima produzida pelo próprio organismo, ela pode ser adquirida em forma de suplemento. Dessa forma, pode-se tratar o leite e seus derivados ou então consumir essa enzima oralmente, antes do consumo de produtos lácteos. A quantidade da enzima a ser tomada deve ser prescrita e acompanhada por um médico.

Os queijos mais curados e os iogurtes podem ter um teor menor de lactose e, desta forma, serem mais tolerados por indivíduos que não produzem a lactase.

Andrea Galante é mestre e doutoranda pelo Pronut (Programa de Pós Graduação Interunidades em Nutrição Humana Aplicada da Universidade de São Paulo), e presidente da Associação Brasileira de Nutrição.

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